- Percebi que me distanciei do meu amar.
- Você quer dizer do seu amor?
- Não, meu bem. Me distanciei do meu amar. Meu amor repousa doce e calmo ao meu lado, mas meu coração se põe mais e mais triste conforme passam as estações.
- Não há dor maior do que a de se abandonar.
- É por isso que veio me visitar? Pra levar-me em tuas asas? Porque me abandonei?
- ...
- Pouco me importa, na verdade. Oco, meu corpo já vaga morto pelas ruas daqui. Perambulo à noite e não consigo dormir; não por falta de sono, mas porque já não sonho mais.
- Como pode um homem sonhar sem o tecido dos amores para recobrir-lhe a alma?
- Estou desnudo há tempos, e a malha que uma vez me aqueceu hoje faço de pano de chão.
- Você tem de se haver com isso.
- Acho estranho quando a gente tem que "se haver" com alguma coisa. É um termo estranho. Não é prestar contas, não é se houve, se há, se haverá. "Se haver" com uma situação, um problema, uma pessoa, um amor, desamor... Que é isso? É mais do que só dar conta do problema, aguentar, solucionar um problema. Não. Quem inventou o tal de "se haver" sabia muito bem que é um jeito de se colocar pra fora do limite da própria cabeça, como quando tiramos o recheio da abóbora. Não sei nem conjugar essa merda. Eu me havo com as coisas? Tenho que me haver? Me haverei com isso ou com aquilo?
- Pouco importa a sintaxe, caro.
- Pouco importa sim, mas não pela sintaxe, mas porque essa discussão não me interessa. Você não me interessa.
- O que te interessa?
- Nada. Nem você, nem os cigarros ou Ela. Nada.
Diante desse comentário, a Morte se levantou sem pressa, tomando cuidado de não deixar seu manto arrastar pelo chão. O homem, incrédulo, questionou.
- Oras, não me leva porque?
A Morte, desinteressada, continuou caminhando até a porta, e só se deteve quando já estava no batente, um dos pés para fora do quarto. Parou ali por um momento, esperando alguma súplica, mas o homem nada mais falou. Enojada, saiu em busca de alguém mais vivo.
Odiava quem lhe roubava a chance de matar sem em troca oferecer vida de verdade.
fevereiro 05, 2015
fevereiro 03, 2015
?
A pergunta só
é válida quando leva pra outras perguntas. Uma pergunta por si só não é nada;
uma pergunta por si só não precisa ser respondida. Uma pergunta somente cumpre
seu papel quando coloca a gente em movimento, quando faz a gente questionar
outras coisas que não só aquelas que a pergunta coloca. Pergunta só vale quando
faz a gente ir pra outros cantos da casa, quando coloca a gente de ponta cabeça
pra ver o mundo de cabeça pra baixo - ou de baixo pra cima? Pergunta o que
quiser vai, desde que você (realmente) não saiba a resposta. As perguntas da
humanidade são justamente as que não sabemos responder mas, para além disso,
são também as que nos colocam pra pensar sobre outras coisas que não só a
possível resposta da pergunta, entende? Questionar-se sobre a razão da vida ou do universo, mais do que buscar respostas, é fazer a gente ir ao encontro do nosso lugar no nosso mundo, no nosso universo, meu e teu e nosso e de todo mundo. Não sei a razão do universo, mas sei que cheiro tem chuva de verão e que gosto tem bolo no café da tarde. Me chame de louco, mas me faça uma
pergunta sem resposta.
Perguntar o que é o amor, por exemplo, é inútil, é
raso, é matemático. Me pergunta o que sinto quando olho pras crianças, quando
olho pra's histórias que me contam sobre o mundo e sobre as histórias que me
conto sobre mim. Me pergunte de minhas amantes, não do meu amor. O amor não me
pergunta nada, ele é pura abstração, conceito. Me pergunte do sangue nas veias,
me pergunta sobre as perguntas que já me fiz. As grandes perguntas sobre as quimeras
do mundo, sobre a dor e sobre o passado, sobre o gosto de estrelas e o cheiro
do centro da terra, sobre a vida dos homens e sobre o futuro das sereias... essas
sim são as perguntas que nos fazem ir pr'outro lugar.
janeiro 19, 2015
Liabilities I
We're all becoming liabilities. To the world, to others, to ourselves. Our challenge is to bear the burden of being oneself, even with all the scrapes and bruises that makes us part of what we are. Life is not 'bout creating a safe environment, but surviving the very fact that we're alive.
outubro 16, 2014
Certeza
- E a pior coisa do mundo?
- A certeza.
- Achei que você ia falar que era a morte.
- ...e não é a morte a única certeza do mundo e, ao mesmo tempo, a pior?
- ...
- ...
- E quanto ao amor?
- Que tem a ver o amor com a certeza?
- Nada.
- ...
- Certeza e amor nada tem a ver um c'outro.
- ...
- O que foi?
- ...então não me amas?
- Te amo, meu amor. Te amo desesperadamente.
Só não tenho certeza disso.
setembro 25, 2014
Amor de Metrô
Tá cheio.
É a linha azul às 18 horas de um domingo, é de se esperar.
O empresário do meu lado parece impaciente olhando pro relógio de
pulso, e só desvia a atenção pra checar a possível luz no fim do túnel. O vagão
se aproxima, lento e descompromissado com a irritação do senhor que,
impaciente, suspira.
E, então, ela chega. Ela se senta, ela fica de pé, quem sabe
segura uma criança. Quem é ela? Paixão de metrô, um dos meus prazeres mais
platônicos. Quem é ela? Ela é linda porque não é nada demais. Ela é
absolutamente cotidiana, ela é linda até a próxima estação. Ou será ainda a
próxima? Não sei. Só sei que não sei há quanto tempo a tenho observado,
dormindo, lendo, cantarolando baixo, fazendo nada, escrevendo algo, olhando
desinteressada para os trilhos do metrô.
Amor de metrô: dura até a próxima estação. Ou será a próxima? Não
sei, mas ela é linda! Linda até a última estação, linda sem explicar, linda
entre o Paraíso e a Consolação, linda no espaço de um vagão inteiro. Ela é demasia
e suficiência, e ela se levanta, calma e oblíqua, como quem decidiu descer de
repente. Mas não desce. Fica no meu trem até a próxima estação. Ou será a
próxima?
Cruzam-se as linhas coloridas do metrô e o vagão range os trilhos
ao acelerar descompassado, mas ela nem sabe que já passei da minha estação
há tempos. E, sem saber, ela me conduz no trilho do trem pra mais uma estação.
Ou será talvez mais uma? Afinal, quem é ela? Ela é linda no vão entre o trem e a
plataforma, ela é linda sem esforço e sem saber, e é corriqueira e comum e
tola.
Ela passa pelas catracas, ela senta ali no canto, ela diz algo ao
telefone, ela olha, ela dorme, ela suspira, ela se mexe, ela rabisca. Ela desce
na próxima estação. Ou será, talvez, na próxima?
Ela é banal, ela é linda, ela é costumeira.
Ela basta.
setembro 04, 2014
.
Às vezes acho que o tempo só passa pra me lembrar que eu mudei; se eu não mudei, o tempo não passou. Por isso me sinto tão velho; mudei tanto em tão pouco tempo...
Passaram séculos da minha vida em uma só semana.
Passaram séculos da minha vida em uma só semana.
setembro 01, 2014
Amor Pirata
Veja bem: não é que piratas como eu não se apaixonam. Não é por desencanto, desamor ou descaso; é que por acaso os ventos meus e teus nos sopram pr'outros mares. E de males meu navio já está farto, meu amor. O papagaio no meu ombro só me conta desgraças, e este meu tapa-olho só serve pr'eu ver meias-verdades. Não sei se meu navio afunda com o peso disto tudo, nem sei se chegaremos à próxima cidade a tempo. Só sei que paixão de pirata não é porto, é vento. E me perdoe pelo meu amor torto, e pelo meu coração moleque que não faz nada além de soprar esses ventos. Meus pulmões estão cheios de sal do mar, mal consigo respirar novos ares.
Meu amor é vento, meu amor.
Vento a gente não pega na mão, vento a gente sente.
Vento não pára quando chega aqui ou ali; vento venta. Ventania, vendaval, brisa, maresia, mormaço, sopro, furacão. Tudo o que podes fazer, ao ver meu navio passar ao longe, é respirar. Respira e o vento se encarrega de te trazer aqui pr'mim.
Respira e a maré te traz pelas ondas feito barco de papel.
Respira e os piratas vão aí te roubar pr'mim.
Respira que te roubo.
Respira que respiro.
Respira-me.
O vento há de te soprar no meu caminho.
Meu amor é vento, meu amor.
Vento a gente não pega na mão, vento a gente sente.
Vento não pára quando chega aqui ou ali; vento venta. Ventania, vendaval, brisa, maresia, mormaço, sopro, furacão. Tudo o que podes fazer, ao ver meu navio passar ao longe, é respirar. Respira e o vento se encarrega de te trazer aqui pr'mim.
Respira e a maré te traz pelas ondas feito barco de papel.
Respira e os piratas vão aí te roubar pr'mim.
Respira que te roubo.
Respira que respiro.
Respira-me.
O vento há de te soprar no meu caminho.
agosto 17, 2014
Dirija.
Dirija lento, até a estrada acabar. Devagar, vago, encontro uma vaga no estacionamento ali do seu prédio. Não é o bairro das laranjeiras que, satisfeito, sorri. Sou eu mesmo que sorrio quando, sem menos esperar, você aparece ali no elevador. Caminhamos até a porta do carro, carreta, moto, charrete, quadricículo ou patinete: não importa. Se dirigir, te bebo. Os goles e as curvas da estrada fazem tremer nossos corpos, que já tremiam por si só. Dirija, meu bem, e dirija longe. Dirija até acabar a estrada, depois disso abriremos trilhas nas estrelas.
agosto 13, 2014
My head is an animal.
My head is an animal. Clentching it's teeth on my skin, dragging it's claws across my chest, digging deep into my flesh and bones. Breaking, dripping, gazing, howling at the moon and reminding me to keep away from thoughts of morbidity. For everything that rushes through me from now on is nothing but pure dirty energy.
'There's no place for dead ones here, have you not heard?' it says. 'This animal is now a temple of freedom. Death cannot pass through these gates, for your mind is soundlessly peaceful with the energy of it's own awareness'. The animal in my head begins to roar, and it echoes down my veins and skull. This sound rushes through my blood, opening up my pores as I try to listen to it. My ears hurt just of trying to keep up to the heavy breathing of it. I can't. I absolutely can't keep up with it. Slowly, as my body melts into this big pool of liquid freedom, and I see it taking shape, bathed in blood. Is it a lion? Maybe a bear, perhaps a fox. I don't know, it moves so slowly across the floor that I can barely look at it straight. It saunters as I try to look, and it quickly glances at me for a second. It's fur is stained with my blood, and it's breath fills my head with heat and steam. This animal of mine (or am I it's?) steps slowly into the open field we suddenly appeared at. It starts running. It runs, runs, runs deep into nowhere. What was left of me is torn apart by it's final roar. It's so loud and clear that my ears bleed. I cannot live anymore, not because it has killed me, but because I have already died. For I am an animal.
'There's no place for dead ones here, have you not heard?' it says. 'This animal is now a temple of freedom. Death cannot pass through these gates, for your mind is soundlessly peaceful with the energy of it's own awareness'. The animal in my head begins to roar, and it echoes down my veins and skull. This sound rushes through my blood, opening up my pores as I try to listen to it. My ears hurt just of trying to keep up to the heavy breathing of it. I can't. I absolutely can't keep up with it. Slowly, as my body melts into this big pool of liquid freedom, and I see it taking shape, bathed in blood. Is it a lion? Maybe a bear, perhaps a fox. I don't know, it moves so slowly across the floor that I can barely look at it straight. It saunters as I try to look, and it quickly glances at me for a second. It's fur is stained with my blood, and it's breath fills my head with heat and steam. This animal of mine (or am I it's?) steps slowly into the open field we suddenly appeared at. It starts running. It runs, runs, runs deep into nowhere. What was left of me is torn apart by it's final roar. It's so loud and clear that my ears bleed. I cannot live anymore, not because it has killed me, but because I have already died. For I am an animal.
julho 28, 2014
.
Estar perdido às vezes é sinal de sanidade. Não que isto me exima da angústia da solidão; é só que me acalma saber que é inato em mim sentir-me assim de vez em quando...
julho 20, 2014
Entreporos II
E eis que os
encontro. Pode ser um, dois ou um grupo inteiro. Sento-me com eles ali mesmo, e
puxamos uma cadeira para fazer de mesa de centro. Logo ao entrar já percebo o
cheiro: cada um à sua fragrância, destilando seu aroma. O frio da rua me
abandona, pois o cheiro quente das peles já faz luz ali dentro, me fazendo
esquecer de lembrar de tirar meu casaco. Penetram nos meus poros e eu nos
deles. Sobem pelo sapato, percorrem as dobras da camiseta, se esgueiram ao
redor dos meus braços. Sou eles e também sou aquele cômodo, aquela cadeira
feita de mesa de centro. Nossos cheiros agora se misturam em novas combinações,
e, quando rimos, baforamos o perfume que vai subindo feito névoa. Somos esse caldo de perfume
e creolina, uns-dos-outros: pertence-mo-nos. E, nessa de se trans-porificar, de
abrir poros, criamos novas artérias - não de sangue, mas de ar. Todo um novo
sistema orgânico de respiração, toda uma nova rede de poros e gânglios se
espalha dentro dos nossos corpos e por entre nós. No espaço vazio que antes nos
separava, agora se faz uma selva de brônquios respiratórios, pulsando na medida
em que a bebida e a noite avançam. Onde está meu nariz, minha boca, minha
traqueia? Onde estão vocês quando me faço ser eu-e-vocês, nós, vós, eles? Tento
falar rápido para ver se descubro onde estão meus pulmões, pois já não mais os sinto dentro do meu peito. Mas tudo bem, não preciso recuperar o fôlego. Todas
as amormoléculas se modificando em ligações valentes, amorônicas, instáveis e polarizamoradas.
É uma nova substância, na verdade, surgindo dessa mistura que insiste em se
apresentar enquanto conversamos. É uma cola, uma tinta que nos colore e nos
desfaz os contornos. Nossos olhos derretem, pois agora enxergamos pelos poros,
pela boca, pelo riso e pelo abraço. Nossos poros se dilatam, tal como uma
pupila, e agora podemos ver e ouvir com
nossos corpos. Podemos respirar. Nossos novos pulmões pedem outra coisa além de
oxigênio.
Todo o oxigênio
amor do mundo cabe dentro d'uma sala-de-estar, não sabia?
junho 20, 2014
Entreporos
É um cheiro
intoxicante, na verdade. O calor vai subindo pela nuca, abrindo os poros da
pele. Dilatados, os poros exalam aquele cheiro, uma mistura de grama, açúcar
queimado e bolinho de chuva. É aquele cheiro de ser gente, de estar tão
irredutivelmente preso a si mesmo que seu corpo convulsiona em suor. Cheiro de
creolina. Escorre pelo pescoço e desce pelos braços, lembrando que mesmo à
noite os corpos suam. Cheiro de gente. O mormaço se mistura com esse teu
cheiro, que, agora, deixa o quarto impregnado. E não adianta: há de me
acompanhar até a hora de dormir. Deito a cabeça no travesseiro e lentamente ele
suga todo esse meu cheiro pra dentro dele. Só assim, sem perceber, que meu
corpo se esquece de me lembrar que eu sou eu. Ou você? Não importa, pois fico
ali preso no tecido do travesseiro quente, e meu corpo nada mais é que um peso
em cima do colchão. Estou lá dentro da fronha, dos lençóis, das molas. Cheiro
de sono. Todos os sonhos guardados nos espaços vazios entre um tufo de tecido e
outro. Desejos, amores, gritos e temores presos na malha do algodão. Cheiro de sonho.
Mas logo ali, 06:05 da manhã, meu travesseiro me vomita pra dentro do meu
corpo. Acordo sentindo os pés pesados: esse sabor de ser si mesmo demora pra se
espalhar de volta pros braços, pernas, tronco. E o calor não ajuda. Cheiro de
remela. Lentamente, essa presença vai subindo os joelhos, coxas, umbigo,
pescoço. E, então, logo que eu sou eu de novo. A minha presença me inebria, e é
por isso que sou indeciso: a cada dia que acordo, sou outro. Cada respiração é
uma lembrança de que meu corpo me esvazia e me preenche de mim em um fluxo
contínuo de ser, não-ser e vir-a-ser eu mesmo. Ou você? Cheiro de gente. É tudo
culpa do travesseiro, na verdade. Esse meu cheiro some uma vez que deito na
cama, e o perigo tóxico do cheiro do suor fica todo escondido ali, debaixo da
coberta quente. Não porque esteja calor, mas porque o frio me obriga a escarafunchar
ainda mais no travesseiro. Cheiro de penumbra. Mas onde estou mesmo? Não sou
você, isso não é possível. Mas também não sou eu. E, se não sou o travesseiro,
quem somos? Cheiro de gente que não sabe dizer quem é, cheiro de creolina,
cheiro de suor, cheiro de banho, cheiro de sono, sonho, cheiro de tesão. É
tóxico: cheiro de gente é sempre tóxico. Mas cabe perguntar: quem é mesmo que
se intoxica? Quem é que morre? Não pode ser eu, já lhe disse, e também não pode
ser você. E, se não somos o travesseiro, então somos tudo isso. Somos cheiro.
Não pode ser tóxico aquilo que mata quem nunca existiu. Não há como o perfume nos
matar se nunca fomos nós. Afinal, somos o que além de cheiro?
junho 11, 2014
Não venha se sentar à mesa
Não venha se sentar à mesa
Porque hoje não vai ter copa
Vem passar fome do meu lado
Hoje só tem grito, futebol e
tropa.
Vem se fazer de trapo
Porque na nossa copa não tem
comida
Na nossa mesa não tem almoço
Mas tem TV colorida
Na copa da nossa cozinha
Não tem pães nem paneladas
Não vejo carne
Não vejo codorna
Vejo a falta em 42 polegadas.
Você me pergunta o que tem de
janta
Mas insisto que na minha copa não
tem nada!
Eu vejo a falta do jogador,
Mas quem é que dá pela minha
falta?
Pela visão periférica
Fechos os olhos pra periferia
Aborto meu filho sofrendo
Mas pelo menos não aborto a festa
De ver a torcida perdendo
Torço o pano sujo
Na copa dos imundos
Pra limpar meu rosto suado
Mas imagina que bonito vai ser
Os jogadores entrando no gramado.
O juiz me dá cartão amarelo
Bem queria que fosse uma carne
vermelha
Branca, parda, negra,
De boi, vaca ou ovelha.
Não venha se sentar à mesa, meu
bem,
Não me olhe com essa boca sofrida
Vamos ficar na torcida
Esperando pra ver se alguém
consegue
Transformar gol em comida.
junho 09, 2014
Beijo-peão não se (re)corda
- Não se recorda do beijo?
- Que beijo?
- Ontem.. o beijo, minha boca, a tua, o calafrio nos pés, arrepio na nuca.
- ...
- Não se recorda?
- ?
- O beijo!
- Que beijo? Como me podes pedir pra relembrar o beijo embriagado de (ante)ontem? O que é o que você se lembra, senão a figura decrépita de um momento? Diferente de lembrar-se de um discurso, d'uma aula, dos números de uma conta de banco, beijo não se memoriza, não se guarda, não se esconde atrás de nostalgia. Beijo se recorda beijando. Tal como um peão que, uma vez solta a corda, não se pode mais (re)cordar. Já é outro peão, outro beijo. Não me recordo do beijo não porque me esqueci, meu amor, mas porque não há o que se lembrar. A corda já foi lançada, não dá pra recordar. Não hã memória, recordação nem lembrança que me faça sentir tua boca na minha. Não quero lembrar dos teus beijos: te quero é beijar.
- E o que resta?
- Nada. Só outro beijo. E outro. E mais uns. Minha boca. A tua. O calafrio nos pés. arrepio na nuca.
junho 08, 2014
Vendaval
O vento aprendeu meu nome,
e fica aí cantando minha sorte.
O problema é que cada hora ele sopra pra um lado,
só de pirraça,
de mania,
e meu destino
antes tão certo,
agora se faz mudar ao humor da ventania.
e fica aí cantando minha sorte.
O problema é que cada hora ele sopra pra um lado,
só de pirraça,
de mania,
e meu destino
antes tão certo,
agora se faz mudar ao humor da ventania.
junho 05, 2014
Fresta
O que mais ela quer? Silêncio. Feche as janelas, tranque a porta - mas deixe a chave na fechadura. Não que ela queira sair assim, depressa. Mas é que pra ficar em silêncio tem que fechar esse nosso quarto por todos os buraquinhos: passa muito vento pela fresta da fechadura. E só depois então, com os corpos azeitados de silêncio, é que se pode começar a falar. Do quê? Do amor, do ódio irremediável, da ressaca, do silêncio. E, novamente, silêncio. O que fazem eles a não ser escutar? Sua mudez categórica me ronda, me perplexifica, e no vácuo em que digo as palavras, ecoam menos os verbetes do que o pulsar das artérias. E esse som bate nas paredes, ecoa nas janelas, na porta fechada - e não escapa por nenhum fresta. Novamente, silêncio. E ficamos ali, ouvindo a mudez orquestral do nosso corpo.
E então, silêncio.
E então, silêncio.
abril 26, 2014
Pour yourself over my skin
And I'll slowly soak you up
Swim and try and shake you fin
Drown in your own damn good luck
For you are everything that dies
And lives and falls and shows and cries
You are the numbness in my voice
The counterpart of a rutheless choice
Open up your clothes and let me in
And let the bitterweet goosebumps in the summer
The backbone tingle
The paradoxical mistake
And fake, and make, and take
the
world
in.
And I'll slowly soak you up
Swim and try and shake you fin
Drown in your own damn good luck
For you are everything that dies
And lives and falls and shows and cries
You are the numbness in my voice
The counterpart of a rutheless choice
Open up your clothes and let me in
And let the bitterweet goosebumps in the summer
The backbone tingle
The paradoxical mistake
And fake, and make, and take
the
world
in.
março 06, 2014
Lá... pis.
Os dedos formigam diante da folha branca. Que cor começar primeiro? Não sei, acho melhor eu ir ali comer alguma coi... não. Pego novamente o lápis, meio que sem escolher a cor. O coração palpita, o suor das mãos parece sujar o papel em branco.
Começa com um rabisco. Uma linha, uma curva, um erro do lápis. Às vezes é um tropeço do dedo, uma formiga ali do lado xeretando nas minhas bolachas, uma coçeira nos olhos que me lembra que faz tempo que não desenho nada digno de ser visto. Mas então começa. Rabisco. Como que num sonho onde você só consegue olhar pra certas partes, assim vai se fazendo o desenho. Um pouco de cor ali, esfumaça aqui, d'outro lado pintei demais... Mas tudo bem, é só pintar demais tudo ao redor que dá certo. Rabisco. A ansiedade de começar dá lugar à dança dos dedos. Rabisco. Sem perceber, prendo a respiração, que é pra ter certeza que o risco não vai entortar. Mas entorta. Mas o risco continua mesmo assim, mesmo sem saber muito bem pra onde vou - digo, pra onde vai. Rabisco. Por essas horas os calos já começam a doer e o álbum já repetiu duas vezes. Mas nem percebo. Estou lá com Dali, Picasso, Kat Von D, todos me lembrando o quanto desenhar é mais processo do que resultado. Desenhar-me, desdenhar-me, desenhe dar-me... Rabisco.
Será que está terminado? Não sei. Rabisco.
janeiro 23, 2014
Backspace
Odeio gente perfeita. Dessas de pele limpa, de veludo, cabelo de comercial. Odeio essa gente bem equilibrada, bem resolvida, que não dá backspace na hora de escrever. Que não erra, que não digita errado, que não toma refrigerante porque estudos na Dinamarca dizem que faz mal. Não que o refrigerante não faça mal, nem que há problema em não tomá-lo: o que clamo é pelo erro, pela ressaca, pelo prejuízo, pelo feio. Gente legal demais enche o saco. Tem tanto mais coisa pra fazer na vida do que só estar de bem com ela. Estar de mau, estar enamorado, estar errado, estar embriagado, apaixonado, perdido, revoltado, amado. Odeio vida sóbria demais. Temos mesmo é que encher a cara de gente, de mundo, de felicidade, de dor, de vida e de não-vida. Odeio quem odeia ser normal: não tem coisa mais Z que uma classe A.
"Ó lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar."
dezembro 09, 2013
Uma luz se apagou
Sem o menor
aviso, uma das lâmpadas da rua se apagou. Assim, sem mais nem menos. Para
qualquer transeunte, uma lâmpada a mais. Mas eu estava ali, com o olhar fixado
na sua luz, o globo de plástico já quente de ter ficado tanto tempo aceso. Sem
mais nem menos, a luz apagou. Os pombos continuavam ciscando, o vento quente
não mudou a direção. Mas a lâmpada apagou. Vai ver é isso que acontece com a
gente. Apaga uma luz na nossa rua assim, sem mais nem menos. E às vezes a gente
nem percebe, justamente porque tem um outro poste logo ali. Mas a noite fica
mais noite com uma lâmpada a menos. Sem uma lâmpada na minha rua, me vejo
menos, e melhor. Sem uma lâmpada, fico menos luz, mais noite. E quanta noite cabe
dentro da gente! A noite não é uma criança: a noite somos nós, com a cabeça no
travesseiro, objeto tão individual que deveria ser pessoal e intransferível. É
na noite que a nossa rua se acende, seja pra clarear o coração ou esconder
nossos defeitos no escuro. Mas juro que uma luz se apagou. Com uma lâmpada a
menos, meu travesseiro murchou. Ficou assim, murchinho. E minha cabeça agora
lateja no concreto da rua: corre pra avisar todo mundo, garanto que uma luz se
apagou! Sabe-se lá o que acontece nessa penumbra que divide a minha rua. É mau
agouro, dizem as más línguas. Dizem que poste apagado abre a porta pros
demônios. E que demônios, uma luz se apagou!
Sou a luz
apagada do poste. Sou esse vento, o mormaço. Sou os pombos ciscando ali na rua.
Minha rua é tudo isso, é mar calmo, é feira, é deserto. É uma rua cheia de
lâmpadas acesas, menos uma. Corre pra avisar, corre que lhe garanto: uma luz se
apagou na minha rua.
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